‘Faraó dos bitcoins’: documento do MPF comprova que empresa não apresentou qualquer plano de pagamento aos clientes

Em texto publicado pelo MPF, chefe de setor frisa que foram analisadas cerca de 200 peças presentes nos autos do processo.

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No dia 24 de janeiro, um dos advogados da venezuelana Mirelis Yoseline Diaz Zerpa, mulher de Glaidson Acácio dos Santos, o “faraó dos bitcoins”, afirmou que a GAS Consultoria estava apresentando à Justiça um plano de pagamentos que teria o objetivo de acertar as pendências da empresa do casal com milhares de clientes. A notícia deu esperança aos investidores, que não recebem o rendimento prometido fruto de supostas transações com criptomoedas — muito acima dos praticados pelo mercado, o que gerou nas autoridades a suspeita de que se trataria uma pirâmide financeira. — desde a prisão de Glaidson, em agosto do ano passado. Um documento obtido pelo GLOBO, contudo, traz a realidade à tona: não existe, até o momento, nenhuma tratativa formalizada por parte do grupo no sentido de organizar a quitação dos valores devidos às vítimas.

Trata-se de um ofício da Divisão Criminal Extrajudicial (Dicrimex) da Procuradoria da República no Rio de Janeiro. No texto, que leva a rubrica do Ministério Público Federal (MPF), o chefe do setor, Bruno Ricardo Pinheiro Arruda, comunica, “em cumprimento a um despacho” da procuradora da República Cíntia Melo Damasceno Martins, que não há na ação penal relativa à GAS Consultoria “a informação de que tenha sido celebrado qualquer acordo, bem como não foi identificado procedimento para esse fim”. Arruda frisa que foram analisadas cerca de 200 peças presentes nos autos do processo.

O documento tem a data de 16 de fevereiro, quase 20 dias depois do anúncio feito pelo advogado de Mirelis, que, segundo os investigadores, encontra-se foragida nos Estados Unidos, onde chegou a sacar o equivalente a aproximadamente R$ 1 bilhão em criptomoedas. O ofício está anexado a uma ação coletiva movida contra a GAS Consultoria pela Associação Nacional Centro da Cidadania em Defesa do Consumidor e Trabalhador (Acecont), que cobra R$ 17 bilhões da empresa para ressarcir mais de 300 mil pessoas lesadas, em uma estimativa feita pela própria entidade.

No dia 1º de fevereiro, passada uma semana da promessa feita pelo advogado de Mirelis, a própria GAS já havia desmentido o profissional. Em um comunicado evasivo enviado aos clientes, a empresa afirmava que, na verdade, o tal plano de pagamento ainda estava em “fase de elaboração” e que, “muito embora haja uma real intenção de apresentação”, até aquele momento não havia “formalização de tal proposta perante o Poder Judiciário”.

“Em que pese todo excesso praticado nas ações e desdobramentos ocorridos no curso da Operação Kryptos, compreendemos que ordem judicial não se discute, devendo apenas ser cumprida e debatida dentro dos autos do processo. Por esta razão, há um trabalho incessante por parte do corpo jurídico para que essa batalha judicial travada seja vencida, por meio de recurso próprio ou mesmo acordo adequado”, prosseguia o texto remetido aos investidores via Telegram.

O comunicado reafirmava, então, “que o compromisso com todos os clientes será honrado”, tão logo a empresa seja “autorizada judicialmente a fazê-lo”. Não havia na mensagem, porém, nenhum detalhamento concreto sobre as intenções do grupo neste sentido. “Seguimos acreditando no trabalho sério que está sendo desempenhado e, sobretudo, na Justiça brasileira”, limitava-se a informar o texto dirigido aos clientes.

Ao anunciar o acerto iminente durante uma transmissão ao vivo para mais de 19 mil pessoas, o advogado de Mirelis chegou a afirmar que a intenção de Mirelis sobre o plano de pagamentos já havia sido informada à juíza Rosália Figueira, da 3ª Vara Federal Criminal do Rio, onde tramita a ação contra o casal e seus sócios. Uma das hipóteses estudadas, segundo ele informou na ocasião, era a homologação de um acordo de leniência, no qual a GAS também assumiria as obrigações fiscais sobre suas operações.

Os investigadores do caso já haviam se declarado surpreendidos com a notícia sobre o suposto plano de pagamento. Alguns deles receberam o anúncio com desconfiança, suspeitando que se trataria de mais um meio de pressão para tentar suspender as prisões de Glaidson e Mirelis.

*Com informações do EXTRA.

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