Comprar um galão de água ou um botijão de gás em Armação dos Búzios deixou de depender apenas do mercado. Segundo denúncia apresentada pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), um grupo criminoso passou a controlar a venda desses produtos no município, impondo aumento no preço da água, obrigando revendedores de gás a comprar de um fornecedor indicado e ameaçando comerciantes que resistiam às ordens.
A atuação do grupo veio à tona após a prisão de quatro suspeitos durante investigação da 127ª Delegacia de Polícia (127ª DP). De acordo com o Ministério Público, a organização criminosa montou um esquema de extorsão para controlar parte do comércio de produtos essenciais na cidade, um dos principais destinos turísticos da Região dos Lagos.
Na venda de água, os criminosos determinavam um aumento de R$ 2 no preço de cada galão. O valor adicional, segundo a denúncia, deveria ser entregue à quadrilha. Comerciantes que recusavam a cobrança eram ameaçados e avisados de que não poderiam mais continuar trabalhando.
O grupo também atuava na comercialização de botijões de gás. Conforme a investigação, os revendedores eram obrigados a comprar os produtos de um único fornecedor indicado pelos criminosos.
Um comerciante relatou à polícia que decidiu adquirir sete botijões em Cabo Frio por causa do preço praticado em Búzios, onde cada unidade chegava a custar R$ 150. No retorno ao município, ele contou que foi abordado pelos suspeitos, que tomaram toda a carga sob a justificativa de que os botijões não poderiam ser revendidos por terem sido comprados em outra cidade.
Depois do episódio, o comerciante afirmou ter recebido mensagens com ameaças e ordens determinando de quais fornecedores poderia comprar novos botijões. Outros dois revendedores autônomos também procuraram a polícia e relataram intimidações semelhantes. Em um dos casos, os criminosos citaram a retenção dos sete botijões para reforçar as ameaças.
As investigações começaram após as denúncias dos comerciantes. Em abril deste ano, três suspeitos foram presos. Com eles, os policiais apreenderam sete celulares, cerca de R$ 10 mil em dinheiro e anotações contendo chaves Pix e dados de comerciantes da região. O avanço da investigação levou à identificação e prisão de um quarto suspeito apontado como integrante da organização.
Ao decretar a prisão dos investigados, o juiz responsável pelo caso afirmou que os fatos indicam a existência de uma estrutura organizada para dominar, por meio de intimidação, um setor essencial da economia local. O magistrado também destacou que as vítimas são trabalhadores que dependem da revenda de gás para garantir o próprio sustento.
O caso reforça um cenário que tem chamado a atenção das autoridades no estado. Reportagem publicada pelo jornal O Globo mostrou que facções criminosas vêm ampliando a atuação sobre mercados de produtos essenciais, como alimentos, materiais de construção e itens de limpeza, obrigando comerciantes a comprar de fornecedores determinados pelos grupos criminosos e transformando esses setores em novas fontes de financiamento.
A reportagem não conseguiu localizar a defesa dos suspeitos citados na denúncia. O espaço permanece aberto para manifestação.
Jornalista pós-graduada em Jornalismo Investigativo pela Universidade Anhembi Morumbi e graduada em Comunicação Social pela Universidade Veiga de Almeida.
Repórter no Portal RC24h desde 2016 e coordenadora de reportagem desde 2023. Também é repórter colaboradora no jornal O Dia/Meia Hora e criadora de conteúdo para Web 3.0.
Atuou como produtora e repórter na Lagos TV, coordenadora de programação na InterTV - afiliada Rede Globo, apresentadora na Rádio Costa do Sol FM e editora no Blog Cutback.
Vencedora do 3º Prêmio Prolagos de Jornalismo Ambiental, categoria web.






