“CARTAS PARA AMENA”/ Filme revela acervo literário inédito deixado por Amena Mayall

Filósofa e ativista desenvolveu um trabalho de valorização de artistas da Região dos Lagos, além de ser pioneira na luta ambiental no início dos anos 80; sua face artística foi descoberta pela filha Moana Mayall

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Moana Mayall no Marx-Engels Forum, em Berlim. Créditos da Imagem: Hanna Bergfors, 2022
Moana Mayall no Marx-Engels Forum, em Berlim. Créditos da Imagem: Hanna Bergfors, 2022

Numa travessia desde o Atlântico, o filme “Cartas para Amena” conecta mulheres da Região dos Lagos a Berlim, cidade onde hoje reside a artista Moana Mayall, filha da escritora e ativista Amena Mayall, falecida no ano de 1986, na cidade de Cabo Frio. O trabalho, que consiste na produção de cartas em relação às obras deixadas por Amena, revela um acervo literário ainda desconhecido pelo público.

Amena Mayall sempre foi reconhecida e lembrada pelo seu legado político, do qual se destaca o tombamento das dunas de Cabo Frio, a fundação do Centro Cultural Manoel Camargo e do Partido dos Trabalhadores na cidade. Ela participou de movimentos de combate à ditadura no início da década de 1970. Veio para Região dos Lagos em 1975 e desenvolveu um trabalho pioneiro na catalogação, valorização e circulação (nacional e internacional) dos artistas populares e locais, revelando ao grande público, nomes como Antônio de Gastão, Mudinho da Rasa, Zé do Barro, Castorina, Chiquinho da Sucata e muitos outros. É dela o legado precioso das MareArtes e a participação no movimento carnavalesco do final dos anos 70 e início dos anos 80. Também foi pioneira na luta ambiental criando, em parceria com colaboradores, a campanha “SOS Dunas” no início dos anos 80.

No entanto, a face artística como escritora e artista visual só veio a emergir postumamente, quando os seus escritos, croquis e desenhos encontraram as mãos da filha, e desde sempre o seu desejo em compartilhar a visão de mundo que Amena transmitia, em especial através de seus poemas- estes, descobertos por acaso por Moana, através de uma amiga de Amena, Felicia, com quem ela havia frequentado uma oficina literária no Rio, nos anos 80.

 “Falar de Amena é falar de gaivota, do mar, de um ser libertário”, disse Meri Damasceno no setting das filmagens, elucidando as escritoras mais novas sobre as memórias de Amena. São nesses pequenos detalhes que se afirma a veia geracional do filme, conectando o passado ao tempo presente.

Patrocinado pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro e pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa, o documentário tem o intuito de revitalizar a memória da artista, por meio das palavras. “Escrever cartas para uma mulher que veio antes de nós é seguir o fio da luta que se repete. Nas obras da Amena encontramos uma mulher absolutamente viva, que nos fala sobre amar a vida e ter sede de viver. E, também, de ter a sabedoria para manejar ternura, alegria e garra por uma sociedade mais justa, ideais que aparecem nas palavras dela”, conta Aline Moschen, diretora da produção.  

“Essa sensibilidade em se importar com os sentimentos dos outros eu vi no seu poema Flash Doméstico, no qual você descreve um exemplo de desigualdade de raça e classe tão arraigada no nosso país. Quando você menciona que se tratava de uma mulher da área rural, fico pensando que provavelmente era uma quilombola. Mas naquele tempo elas, descendentes de escravizadas, ainda não tinham se auto identificado. Fiquei imaginando se você ouviu falar em dona Rosa da região da Caveira, que nesse tempo ainda travava uma batalha pela terra. Ela e você tem em comum fazer uso de poesias para descrever os sentimentos gerados pelos desafios da vida” escreveu Gessiane Nazário, em sua carta narrada no filme, disponível no canal Mulheres de Sal no YouTube.

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