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CABO FRIO / Sindicato chama secretário de ‘capitão do mato’ e gera polêmica na cidade

Profissionais da educação acusam Flávio Guimarães de cortar salário de professores grevistas; publicação no Facebook do Sepe Lagos na segunda-feira (29) repercutiu até no plenário da Câmara; entidades e movimentos prestaram apoio a Flávio

O Sindicato dos Profissionais da Educação de Cabo Frio (Sepe Lagos) fez críticas ofensivas contra o secretário municipal da pasta, Flávio Guimarães, em publicação no Facebook na noite de segunda-feira (29). Flávio, um homem negro, foi chamado de “capitão do mato” na postagem.

Segundo a categoria, Guimarães cortou o salário de professores que aderiram a “Greve Pela Vida” por discordarem do retorno de parte das atividades escolares ao presencial.

“É capitão do mato SIM o professor secretário que pune professor cumprindo deliberação da categoria em assembleia e, no caso, em defesa da vida”, argumentou a professora Denize Alvarenga em um dos comentários da publicação.

A postagem repercutiu bastante durante toda a terça (30) e, após ser bombardeado por críticas, o próprio sindicato recuou e emitiu uma nota nesta quarta (31).

O sindicato pede desculpas “aos trabalhadores negros e negras que se sentiram ofendidos por esta comparação”, porém não estende o pedido a Flávio Guimarães, que foi o alvo do comentário apontado como ofensivo.

“Não damos nenhum passo atrás em nossa denúncia contra o traidor Flávio Guimarães”, diz a nota.

O Sepe diz que “é um grave equívoco associar esses personagens exclusivamente ao fenótipo do negro, já que brancos e mestiços também cumpriram esse papel repressor, vastamente comprovado pela historiografia crítica”.

Por isso, o sindicato afirma ter se surpreendido com “a associação feita nas redes sociais, como uma caracterização racista e não política de um repressor”.

O Portal RC24h procurou Flávio Guimarães para pedir um posicionamento sobre a polêmica.

Em nota, Flávio disse que “é preocupante o fato de que em pleno século XXI, com tantas informações à disposição, tenhamos que reforçar continuamente a luta antirracista”.

O secretário, que considera que o uso de termos racistas para defender qualquer que seja a causa, é injustificável, afirmou que a assessoria jurídica dele está tomando providências para garantir que esses episódios não mais se repitam.

“Confio na justiça e agradeço as muitas manifestações de solidariedade que venho recebendo desde então”, conclui a nota.

Debate na Câmara

A repercussão do assunto chegou até a sessão plenária desta terça da Câmara Municipal de Cabo Frio. Dois vereadores usaram parte do tempo deles para comentar a postagem do Sindicato.

O líder do governo na casa, Davi Souza (PDT), classificou o fato como “uma comparação muito infeliz” e disse que é algo que “tira a legitimidade, inclusive, da luta do movimento negro” não só em Cabo Frio, como no Brasil.

Davi também prestou solidariedade a Guimarães, que, segundo o parlamentar, “vem fazendo um excelente trabalho” e é “alguém muito preparado, que tem uma história incrível na educação de Cabo Frio”.

O vereador Vanderson Bento (PTB) disse que a Câmara está sempre do lado do professor, mas que o posicionamento do Sepe o fez lembrar da época do apartheid.

“[Época] que queria dividir, segregar, separar, apartar. Isso é inaceitável, é um retrocesso absurdo”, pontuou Bento.

Vanderson ainda chamou o Sepe de “sindiquieto”, porque “nas causas que têm que gritar, eles não gritam”.

“Como que eles fazem isso? Eles acham que os vereadores aqui não vão se indignar com esse preconceito, com esse racismo?”, questionou.

Além da fala, o vereador também publicou uma nota de repúdio, lembrando que Guimarães é o primeiro negro a ser secretário de Educação de Cabo Frio e afirmando que o Sepe “quer ter razão a todo custo”.

A própria Câmara Municipal também se posicionou e afirmou que “qualquer expressão que remeta ao racismo é inaceitável e será sempre combatida por esta Casa Legislativa”.

“A Câmara nunca deixará de se pronunciar diante de tais acontecimentos. O assunto foi trazido à sessão ordinária desta terça-feira (31) pelo vereador Vanderson Bento, presidente da Comissão de Direitos Humanos. Todos os vereadores presentes se solidarizaram com secretário Flavio”, conclui a nota do Legislativo.

Movimento Negro Unificado e Comissão de Diretores da Rede Municipal se posicionaram

Nota pública enviada pelo Movimento Negro Unificado (MNU) em solidariedade ao secretário de Educação cabo-friense, Flávio Guimarães

O Movimento Negro Unificado (MNU) emitiu nota se solidarizando com o movimento grevista, mas se posicionou ao lado de Flávio Guimarães em relação ao “ataque racista” do Sepe.

O MNU classificou Guimarães como um “homem negro e servidor público que sempre atuou em prol das lutas sociais contra o racismo, a intolerância e todas as formas de preconceito, inclusive pela aplicação do ensino de história e cultura africana”.

Para o movimento, “na nota infeliz encontra-se ostentada a reprodução mais visceral de como o racismo estrutural possui fincados seus tentáculos em algumas de nossas organizações de luta, das mais tradicionais e resistentes”.

Assim, o MNU reforçou que “vamos precisar de união e dialogo permanente para redimensionar as dores trazidas as pessoas negras em espaços de poder, quando não se consegue objetivar o profissional e o conceito de gestão pública”.

“Não tem esta nota a menor intensão de justificar atos de gestão, condenados pelos movimentos populares representativos. O que se pretende é única e exclusivamente chamar a atenção aos dirigentes sindicais do Sepe Lagos para o uso inadequado da expressão ‘capitão do mato'”, esclareceu o MNU.

A Comissão Permanente de Diretores da Rede Municipal também se posicionou e repudiou a afirmação do Sepe. Em nota, a comissão disse que, “enquanto instituição representativa de uma categoria, o cuidado ao produzir e divulgar conceitos discriminatórios deve ser ponderado”.

Criticas nas redes sociais

Na publicação do Sepe, diversos internautas criticaram a comparação, chamando-a de “desnecessária” e classificando-a como errada em pleno século XXI.

“Vergonhoso um sindicato se referir a uma pessoa dessa forma. É claro que sabiam que iam atingir o ofendido de forma cruel”, pontuou um dos comentários.

“Como professor e historiador, penso ser um absurdo essa comparação. (…). Poderiam fazer reinvindicações sem determinadas comparações. Extremamente triste, ainda mais vindo de um sindicato que representa educadores”, disse outro internauta.

Confira a postagem original do Sepe Lagos e alguns dos comentários de internautas:

Luiz Felipe Rodrigues
Estudante de Jornalismo pela Universidade Veiga de Almeida. Atuou como estagiário do G1 na InterTV, afiliada da Rede Globo. Desde junho de 2020, escreve para o Portal RC24h.
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