InícioRegião dos LagosCabo FrioMemórias póstumas de um pescador que 'respirou' a Lagoa de Araruama

Memórias póstumas de um pescador que ‘respirou’ a Lagoa de Araruama

Luís Fernando Medeiros Cardoso morreu de câncer em 2018 e, até onde sua saúde permitiu, lutou pela recuperação da balneabilidade da laguna

A pesca artesanal é uma atividade intrínseca à cultura pesqueira de Cabo Frio. Utilizando artefatos de trabalho feitos manualmente e se baseando em conhecimentos prévios sobre o ciclo de vida dos peixes, os pescadores envolvidos nesse meio se misturam à história da cidade. Esse era o caso de Luís Fernando Medeiros Cardoso – “Nando”, para os familiares – que morou a vida inteira no município e utilizou, até onde sua saúde permitiu, a Lagoa de Araruama como fonte de alimento, renda e felicidade.

Barco Naná no Canal do Itajuru | Imagem: Luís Fernando/ Arquivo

Era com o barco Naná, assim nomeado em homenagem à sua mãe, que Luís construiu seu legado na pesca cabo-friense, sendo lembrado, carinhosamente, por toda a comunidade até os dias de hoje.

Para seus familiares, Nando, ou “Farnangaio”, apelidado assim no meio da pescaria por conta de um peixe, já nasceu com a paixão pela pesca dentro de si.

Silvia Cardoso Bastos, a irmã mais velha de Luís, relembrou, inclusive, de um pequeno acidente sofrido por ele ao tentar pescar em um valão perto de casa quando era criança. “O anzol pegou nas costas dele, que teve que ir à farmácia tirar”, compartilhou.

Farnangaio ao lado de Alexandre da Colônia. Foto: Maurício Düppré

Já Alexandre Cordeiro, também conhecido como “Alexandre da Colônia”, grande amigo de Farnangaio, declara que Luís sempre foi um homem “destacado”.

“Nunca gostou de ficar junto, com muitos amigos, né? Ele escolhia os amigos dele e eu fui um dos amigos que ele escolheu, além de outros. Foi um cara que se dedicava muito, principalmente nas artes de pesca. Criava muito apetrechos com as próprias mãos, com chumbo, com madeira. Costurava, fazia um pulsar de pesca como ninguém fazia. Hoje nós sentimos muita falta dele (…)”, declarou Alexandre, que atualmente é vereador de Cabo Frio.

Luís aproveitava a proximidade de sua casa com a Lagoa de Araruama para se dedicar à pescaria, integrando-se, aos 26 anos, à Colônia de Pescadores Z4, grupo que se dedicou até seus últimos momentos. Ele não trabalhava com pesca unicamente para seu sustento, mas também por amor.

Apesar disso, sua trajetória na pesca começou muito antes. Farnangaio, com apenas 17 anos, conquistou, em 1979, o primeiro lugar no 1º concurso de pesca de Carapicu de Cabo Frio, que acontecia no Canal do Itajuru. No caso, vencia quem pescasse a maior quantidade.

Apesar da pouca idade e dos concorrentes mais velhos, Luís não se intimidou. Com o passar dos anos ele continuou participando – e vencendo. Sua irmã mais nova, Tânia Cristina Medeiros, conta que “chegou um momento em que não queriam mais que ele participasse, porque sempre ganhava”.

Já José Carlos, irmão que competia ao lado dele, afirma que, com o passar dos anos, devido às suas performances e pescas ‘recheadas’, Farnangaio consagrou-se como “um dos melhores pescadores de Cabo Frio e, sem dúvidas, o melhor do Canal do Itajuru”.

Farnangaio e outros pescadores da Colônia Z-4 comemorando a festa dos pescadores. Foto: Reprodução/Redes sociais

Muito atuante na Colônia de Pescadores e na equipe de gestão do Pescarte, que reúne pescadores artesanais e seus parentes, atingindo, de acordo com o senso do projeto, aproximadamente 3.478 famílias, com o objetivo de construir um ambiente sustentável e de qualificar os pescadores, Luís acompanhou de perto, até 2017, todas as fases da Lagoa de Araruama. Nando lutou na linha de frente pela recuperação da bacia hidrográfica até onde pôde.

Por viver das pescas, Farnangaio passou por momentos difíceis nos anos 2000, dependendo, inclusive, do seguro desemprego. Mario Flavio Moreira, biólogo, consultor ambiental e secretário de Meio Ambiente de São Pedro da Aldeia, revela que, até 1999, ambientalistas afirmam que “a lagoa era transparente e cristalina. Em janeiro de 2000, ela ficou turva e o prejuízo econômico foi grande, tanto no turismo como na pesca. A partir daí, a qualidade das águas da lagoa ficou comprometida nas praias de Araruama, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia. Esta situação provocou uma grande mobilização social que resultou na criação do Consórcio Intermunicipal Lagos São João, formado por representantes das prefeituras locais, empresas privadas, organizações da sociedade civil organizada e membros do Governo do Estado”.

É que, à época, o crescimento populacional na Região dos Lagos e, consequentemente, nas cidades que abrangem a laguna trouxe consigo o livre despejo de esgoto na bacia hidrográfica, acarretando, além do péssimo odor, na mortandade de grande parte da vida marinha local.

Foram anos difíceis para os pescadores. Contudo, o cenário, aos poucos, foi mudando. Segundo Mario Flavio, “o desassoreamento da Lagoa de Araruama, somado ao tratamento de 70% da carga de esgoto das cidades, foram essenciais para a manutenção da qualidade de suas águas e preservação de sua biodiversidade”.

Além disso, Moreira também mencionou que a construção da nova Ponte do Ambrósio também contribuiu com esse processo.

“(A construção) ampliou de 30 para 300 metros o vão entre Cabo Frio e São Pedro da Aldeia, o desassoreamento do Canal de Itajuru com a retirada de aproximadamente 300.000 m³ de areia, o derrocamento (retirada) de pedras no trecho entre as Pontes Wilson Mendes e Feliciano Sodré, no centro de Cabo Frio, garantindo o vão livre de obstáculos de 50 metros de uma margem a outra do Canal de Itajuru”, explicou.

Mario Flavio Moreia, biólogo, consultor ambiental e secretário de Meio Ambiente de São Pedro da Aldeia – Foto: Arquivo Pessoal

Em 2003, conforme Mario Flavio, iniciou-se uma negociação direta com as concessionárias responsáveis pelo abastecimento de água e tratamento de esgoto. “Águas de Juturnaíba e Prolagos anteciparam seus investimentos em saneamento através do início das obras de captação de esgoto, em “tempo seco”, que funciona junto com a rede de águas pluviais (águas da chuva). Este sistema alternativo e provisório de coleta e tratamento de esgoto foi a solução encontrada, em curto prazo, para salvar a Lagoa de Araruama”, explicou.

O biólogo explica que esse tipo de tratamento foi o início de um sistema que levou a construção das Estações de Tratamento de Esgoto (ETE), o cinturão coletor ao redor da laguna e as barragens provisórias nos principais canais para impedir a entrada de esgoto “in natura” e bombear este esgoto para as ETEs quando o tempo está seco, sem chuvas.

“Hoje temos 5 ETEs. Em Araruama, temos a “Wetland,” um sistema artificialmente projetado para utilizar plantas aquáticas no tratamento de esgoto. Ainda temos a ETE de Iguaba Grande, São Pedro da Aldeia e duas em Cabo Frio, sendo que a do Jardim Esperança entrou em operação mais recentemente e lança seus efluentes tratados da margem esquerda do Canal do Itajurú no Rio Una. Esse projeto de transposição de bacias foi elaborado pelo Consórcio Intermunicipal Lagos São João e executado pela Prolagos em parceria com o Governo do Estado. Anualmente, são removidas cerca de 2.700 toneladas de carga orgânica, com 397 toneladas de nitrogênio e 88 toneladas de fósforo”, explica.

Os grandes investimentos e o tratamento do local provocaram uma grande mudança na balneabilidade da laguna. Inclusive, atualmente, pescadores comparam o estado da bacia hidrográfica à década de 80, justamente o período em que Farnangaio conquistou seu primeiro troféu com a pesca de carapicu.

Em 2017, um ano após entrar para a equipe de gestão do Projeto Pescarte e se envolver em ainda mais cursos para, como ele mesmo dizia, “lutar pela causa”, Luís Fernando descobriu um câncer, já avançado, no esôfago. Mesmo lutando até o último segundo para manter-se vivo, a doença atingiu o estágio terminal e, em questão de meses, no início de 2018, ele veio a falecer.

Sob o céu tranquilo da laguna, o barco de pesca guarda segredos de um pescador que encontrou a essência da vida na solidão das águas – Foto: Letycia Rocha

Seu envolvimento com a pesca era algo tão íntimo que, em seu leito de morte, Farnangaio solicitou à dona Naná, agora também falecida, que fosse enterrado com a camisa do Projeto Pescarte, já que essa vivência havia se incorporado ao seu cotidiano e o deixava profundamente feliz.

Cinco anos depois, infelizmente, Luís Fernando não pôde presenciar a bacia hidrográfica em uma de suas “melhores versões”.

Com mais de 80% da extensão sendo tratada conforme Prolagos, hoje em dia, o local conta novamente com a presença de cavalos marinhos e carapebas, animais que desapareceram por muito tempo devido à insalubridade; certificação ambiental da bandeira azul em duas praias lagunares, sendo estas as primeiras do Brasil; e paisagens cinematográficas, principalmente na Praia do Siqueira, lugar tão familiar para Luís, já que ele passava um bom tempo pescando pela localidade.

Para a irmã mais nova, Nando pode não ter visto essa melhora gradativa presencialmente, contudo, afirma que, de onde ele se encontra, deve estar feliz.

Navegando pelas águas da memória, o velho barco de pesca guarda as histórias de Farnangaio, que viveu pela arte pesqueira, capturando sonhos no silêncio da Lagoa de Araruama – Foto: Letycia Rocha

“Tenho certeza de que ele está satisfeito, afinal, grande parte de sua vida foi lutando por essa lagoa e sua recuperação. Ela pode não estar totalmente limpa, mas o caminho é esse. Sem contar que está sob as bênçãos dele, dos outros pescadores que já partiram e dos que ainda seguem nessa incessante luta: correndo atrás e cobrando as autoridades e concessionárias”, compartilhou.

Graduada em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela Universidade Veiga de Almeida.

Já atuou como apresentadora na Jovem TV Notícias, em 2021. Escreve pelo Portal RC24h há três anos e atua, desde julho de 2022, como repórter do Jornal Razão, de Santa Catarina.

É autora publicada, com duas obras de romance e mais de 500 mil acessos nas plataformas digitais.

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