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Empresário mandou seguranças “amarrar” jornalistas e planejava fugir do país

Segundo investigação, Glaidson Acácio dos Santos disse em ligação grampeada: "você tem que fazer reunião com esses caras e falar assim: olha, é ordem do Glaidson, chegou aqui repórter… É pra pegar, pra amarrar, e eu vou decidir o que vai fazer"

Duas reportagens do jornal O Globo publicadas por Luã Marinatto e Rafael Nascimento de Souza neste sábado (28) informam que Glaidson Acácio dos Santos, de 38 anos, estava incomodado com reportagens que vinham citando seu nome e dão conta de que o empresário iria fugir do país no dia em que foi preso.

Em uma ligação interceptada com autorização da Justiça, o ex-garçom, que até 2014 servia mesas na Região dos Lagos, aparece conversando com um segurança sobre a visita de um jornalista a um escritório da G.A.S Consultoria Bitcoin, companhia do empresário que prometia rendimentos exorbitantes mediante investimento em criptomoedas.

A transcrição do diálogo consta no relatório da investigação, obtido pelo GLOBO.

“Eu já falei com o senhor, pela segunda vez, e volto a falar. Você tem que fazer reunião com esses caras e falar assim: olha, é ordem do Glaidson, chegou aqui repórter… É pra pegar, pra amarrar, e eu vou decidir o que vai fazer. Não vai fazer nada, só vai segurar. Deixou escapar, saiu descendo pela escada, porra! Não pode isso acontecer não”, dispara o empresário para o funcionário no telefonema.

O interlocutor responde: “É, ele me ligou, falou que ‘teve’ um repórter lá, que quando ele chegou na porta, eles saíram correndo”.

No seguimento do diálogo, Glaidson volta a orientar a equipe de segurança a intimidar jornalistas: “Tem que chegar… Não vai fazer nada. É ó, me dá a câmera, me dá o celular, você vai ficar aqui…Ah não, você vai ficar aqui! E acabou”.

O ex-garçom prossegue, e chega a citar o fato de os seguranças trabalharem armados: “Prender aonde? Prender na sala! Não sai! Toma o celular… Tá com arma na mão, pô! Usa a autoridade. Ó, me dá aqui o celular, abre aqui agora! E manda apagar tudo que foi filmado. Aí, liga pra mim!”

As ordens para o funcionário continuam, e o empresário reforça que os seguranças devem entrar em contato com o patrão após abordarem os jornalistas: “Glaidson, ó… Tá aqui, assim, assim, assim. O que que você quer que a gente… O que você quer fazer? Aí, vocês só vão fazer isso… O resto deixa comigo, pô”!

O ex-garçom, contudo, não espefica na conversa o que planejava fazer com os repórteres que o procurassem.

Apesar das concordâncias do interlocutor, Glaidson não se dá por satisfeito e, pouco depois, volta a frisar: “Bateu repórter aí no escritório, é pra pegar! Segura! Toma celular, toma câmera, apaga tudo, e fica com o negócio na mão, com celular e com a câmera na mão… E me liga!”.

Ele persiste: “Só vai liberar eles, quando eu falar assim: pode liberar. Mas eles vão ficar presos no escritório. Eles não chegaram lá querendo falar comigo? Ah, vocês vieram falar com o Glaidson? Então só um minutinho, que ele vai vir. Espera aí. Aí deixa eles lá”.

Nos dois domingos anteriores à prisão, nos dias 15 e 22 de agosto, Glaidson apareceu em reportagens do “Fantástico”, da TV Globo. Os conteúdos abordarvam denúncias de crime envolvendo supostos investimentos em criptomoedas na cidade de Cabo Frio, na Região dos Lagos, cidade que ficou conhecida como Novo Egito por conta das muitas ofertas de enriquecimento fácil.

O tom das palavras de Glaidson a respeito dos jornalistas ajudou a sustentar o pedido de prisão remetido à Justiça pela PF e pelo Ministério Público Federal, assinado pelo procurador da República Douglas Santos Araújo e pelo delegado federal Guilhermo de Paula Machado Catramby.

“Os episódios apontam para o fundado receio de que tais investidas também se estendam a testemunhas, mormente diante do forte aparato de segurança do grupo, razão pela qual a prisão preventiva mostra-se também necessária para a conveniência da instrução penal”, diz o texto do relatorio.

No documento, os investigadores também tratam da possibilidade de fuga de Glaidson. Em uma outra conversa interceptada com autorização judicial, Michael de Souza Magno, apontado pela PF como um importante operador financeiro no esquema montado pelo ex-garçom, fala com um homem não identificado na transcrição sobre uma eventual ida do empresário para o exterior.

Para a polícia, havia o risco de que ele deixasse o país no mesmo dia em que foi preso.

“Porque ele já sabia que ele tinha que sair do país rápido”, afirma o interlocutor para Michael no diálogo, referindo-se, segundo a PF, ao ex-garçom.

Pouco depois, o próprio Michael diz: “Já era pra ter ido embora, cara, pra ‘tá’ bem longe daqui. Aí fica no Rio, fica indo em resenha, fica indo não sei aonde, vai pra festa”.

GLAIDSON QUERIA FUGIR DO PAÍS

No mesmo relatório da investigação obtido pelo GLOBO, havia indícios de que Glaidson planejava deixar o Brasil na mesma data em que acabou capturado pela Polícia Federal.

Para os policiais, uma ligação interceptada com autorização da Justiça é a prova de que o ex-garçom, que até 2014 servia mesas na Região dos Lagos, tinha a intenção de fugir.

O telefonema aconteceu na tarde da última segunda-feira, dia 23 de agosto, às 14h30. No diálogo, Michael de Souza Magno, apontado pela PF como um importante operador financeiro no esquema montado por Glaidson, conversa com um homem não identificado pelos investigadores.

“Porque ele já sabia que ele tinha que sair do país rápido”, afirma o interlocutor para Michael, referindo-se, segundo a PF, ao ex-garçom.

Pouco depois, o próprio Michael diz: “Já era pra ter ido embora, cara, pra ‘tá’ bem longe daqui. Aí fica no Rio, fica indo em resenha, fica indo não sei aonde, vai pra festa”.

Em outro trecho, os dois citam o fato de que Glaidson só estaria com a identidade civil como documento, enquanto aguardava a emissão de um passaporte com visto americano.

O homem não identificado afirma, então, que daria as seguintes orientações ao empresário: “Que que ‘cê’ tem que fazer? Cem países que ‘tão na’ Mercosul, que você ‘tá’ só com a identidade, então. Pega sua identidade e vaza daqui pra lá. Quando o seu passaporte sair, você manda o seu piloto vir buscar o seu passaporte’.

No relatório, os investigadores escrevem que a ligação “deixa clara a movimentação da organização criminosa para a fuga de Glaidson dos Santos, possivelmente na próxima quarta-feira (dia 25/08/2021), passando por países do Mercosul, tendo em vista que o investigado está aguardando a liberação de seu passaporte com o visto americano”.

Os policiais alegam ainda que a decisão de deixar o Brasil veio depois que o programa “Fantástico”, da Rede Globo, exibiu reportagens que citavam o ex-garçom, nos dias 15 e 22 de agosto.

A preocupação da PF e do Ministério Público Federal sobre uma possível fuga era tanta que os pedidos de prisão, assinados pelo procurador da República Douglas Santos Araújo e pelo delegado federal Guilhermo de Paula Machado Catramby, foram enviados à 3ª Vara Federal Criminal às 8h56 do dia 24 de agosto, menos de 24 horas após a conversa interceptada.

Na mesma noite, a Justiça expediu os mandados, permitindo que a Operação Kryptos fosse desencadeada na manhã seguinte.

Os advogados de Glaidson negam que ele tivesse qualquer intenção de fugir do país em definitivo.

De acordo com a defesa do empresário, ele faria uma viagem para Punta Cana, na República Dominicana, onde aconteceria uma espécie de congresso da G.A.S Consultoria Bitcoin, companhia do ex-garçom que prometia rendimentos exorbitantes mediante investimento em criptomoedas.

O evento no exterior reuniria sócios, consultores e familiares em um resort de luxo, com tudo incluído. As atividades teriam início justamente em 25 de agosto, data da prisão, e iriam até 31 de agosto.

“O juiz manteve a prisão preventiva, embora eu tenha apresentado toda a documentação comprovando que não havia nenhuma intenção de fuga. (Havia) Passagens de ida e volta com data marcada, reserva em um resort com check-in e check-out”, disse o advogado Thiago Minagé, que defende Glaidson, acrescentando que vai ingressar com um pedido de habeas corpus no Tribunal Regional Federal (TRF).

A possibilidade de que o empresário deixasse o Brasil junto a dezenas de outras pessoas ligadas à G.A.S, aliás, foi motivo de preocupação para Michael na ligação monitorada pelos agentes.

“Ele já ‘tá’ chamando a atenção, ele tem que passar em ‘OFF’, não pode ir com todo mundo, com cachorro. Com periquito e papagaio. Entendeu? Ele não pode, pô”, reclama o operador para o outro homem, que concorda.

O relatório da PF também destaca a situação da venezuelana Mirelis Yoseline Diaz Zerpa, esposa de Glaidson, que também teve a prisão decretada pela Justiça, mas encontra-se foragida.

De acordo com os investigadores, ela tomou um voo de Cabo Frio para o Rio de Janeiro, “sob forte esquema de segurança”, no dia 23 de junho.

Após uma semana no apartamento do casal, na Barra da Tijuca, Mirelis embarcou, em 30 de junho, rumo ao México. Depois, partiu para Miami, utilizando um visto de estudante. E lá permaneceu.

Thiago Minagé, advogado de Glaidson, também nega que a esposa do cliente fugiu do país. Segundo o defensor, ela apenas viajou para os Estados Unidos, e de lá encontraria o marido no Caribe.

A localização da esposa do ex-garçom também virou tema da conversa interceptada

“Então a gente fica numa situação em que a melhor coisa é ele meter o pé ‘pros’ Estados Unidos e ficar lá, some, fica lá quietinho com a Mirelis”, disse o homem não identificado para Michael na ligação.

Por nota, a assessoria da GAS informou que Glaidson acredita que “tudo vai ser esclarecido”.

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