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Arquiteta de Cabo Frio comanda restauro do Cristo Redentor e ganha destaque nacional

Na véspera do aniversário de 456 anos do Rio de Janeiro, a arquiteta Cristina Ventura, de Cabo Frio, foi destaque na capa do jornal O Globo. A frente de uma equipe de uma equipe de 30 pessoas, ela é a responsável por desenvolver um plano de manutenção e restauração do Cristo Redentor para a festa de 90 anos da estátua.

Moradora de Cabo Frio há 20 anos, Cristina se divide entre as duas cidades há três anos para trabalhar no restauro. Ela conta que foi convidada para o projeto por já ter feito outros trabalhos no cristo. “Eu fui me envolvendo mais e me interessando muito pelo tema, uma das matérias que mais me encantou no mestrado foi a de conservação preventiva e agora, por conta dos 90 anos, a Cone Sul me chamou para acompanhar os trabalhos”.

O restauro prepara o monumento para a comemoração dos seus 90 anos, que serão comemorados em outubro. A prioridade será o restauro da cabeça da estátua, previsto para começar mês que vem com o aval do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan).

A arquiteta fazia um mestrado na UFRJ com foco em patrimônio quando foi convidada pela empresa Cone Sul (uma das patrocinadoras da reforma do monumento) para participar do programa. Ela havia acabado de integrar dois projetos: a recuperação da cobertura do Convento Nossa Senhora dos Anjos, sede do Museu de Arte Religiosa de Cabo Frio (Mart), e do Forte do Perpétuo Socorro, em Paraty.

 

'Lugar de mulher, é onde ela quiser'

A visibilidade e o reconhecimento trazidos com o destaque da matéria deixaram Cristina surpresa e grata. “As pessoas me ligaram e mandaram mensagens com muito orgulho e isso me acendeu essa realidade de que ‘lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive na cabeça do Cristo Redentor’! Isso me deixa muito feliz. A realização de um trabalho que tem um valor enorme e empodera o feminino pra mim foi uma grata surpresa, ver que a gente pode multiplicar e empoderar as mulheres porque nós somos capazes de muitas coisas, de todas as coisas”, comemora.

 

Aulas como terapia

Cristina ainda encontra tempo para coordenar as atividades da casa-ateliê Carlos Scliar, próximo ao Canal do Itajuru, em Cabo Frio, onde o desenhista, gravurista e pintor morou por quase quatro décadas até morrer em 2001. Ela assumiu o posto em 2004 e é autora de uma escultura em tamanho natural de Scliar, instalada em frente ao sobrado do centro cultural. Como no último ano as atividades no espaço foram bastante reduzidas devido à pandemia, Cristina resolveu dar aulas de cerâmica para mulheres quilombolas da região neste período.

As atividades se dão nos jardins da casa-ateliê, pelo menos enquanto a Covid-19 não permite visitas guiadas no interior onde está exposta parte do acervo do artista. Cristina diz que, além aproximar a comunidade da arte, o curso foi uma forma de autoterapia por não poder manter o espaço aberto.

“A Região dos Lagos tem diversas comunidades quilombolas. Oferecemos um curso sobre o manuseio de argila para que essas pessoas criem suas próprias obras, como objetos de uso doméstico. Minhas primeiras alunas foram do quilombo Maria Formosa, em Búzios”.

Mangueirense, sem filhos e solteira (“Estou livre no momento”, brincou), ela foi criada dentro da religião católica, embora hoje não seja frequentadora assídua de igrejas. Aos 23 anos, logo após se formar em arquitetura pela UFRJ, se mudou para Mato Grosso. Era uma jornada para superar a perda precoce da mãe. Lá, trabalhou com restauração e chegou a chefiar o Departamento de Monumentos Históricos do estado.

Em desdobramento desse conhecimento, Ventura planeja realizar um trabalho de diagnóstico e acompanhamento do restauro da Fonte do Itajuru. “Isso eu vou fazer com maior prazer, entendendo que se a gente tem um conhecimento e pode, a gente precisa semear isso”.

 

Cristo da cabeça aos pés

Cristina conhece o monumento da cabeça aos pés, literalmente. Nos últimos meses, cada centímetro quadrado da estátua foi fotografado por câmeras em drones que geram imagens bidimensionais e tridimensionais. Sempre de olho na previsão meteorológica, ela tem que aproveitar os dias de tempo bom para coordenar os trabalhos da equipe e sempre nas primeiras horas da manhã, antes da chegada da multidão de turistas a partir das 8h.

Essas imagens ajudam a diagnosticar microfissuras entre outros problemas na estátua. O material está sendo usado no plano de manutenção, que servirá para planejar a revitalização do monumento até a celebração do seu centenário em 2031.Entre os integrantes da equipe de restauração, estão geólogos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialistas da Universidade Federal de Ouro Preto (MG), que acompanham a conservação das esculturas em pedra-sabão de Aleijadinho, em Congonhas do Campo (MG).

“A estátua está sujeita a condições climáticas intensas. Maresia, oscilações de temperatura que pode variar de 38 graus para menos 20 graus em um único dia”, disse Cristina, que tem feito inspeções do lado de fora da estátua de rapel. “Se o Cristo chegou aos 90 anos, instalado de braços abertos e a 700 metros de altura em boas condições, também se deve ao revestimento em pedra-sabão, que protege a estrutura em concreto”, completa.

 

Grau de impermeabilidade cai para 20%

Mas nove décadas não passaram impunemente. Nos anos 1920, os pedaços de pedra-sabão originais usados para revestir a estátua tinham até 90% de impermeabilidade, impedindo a umidade de atingir o concreto. Hoje, em alguns pontos, o grau de proteção é de 20%.

“Encontrar peças para substituir o revestimento é outro desafio. A jazida original já não existe. Então, estamos comprando pedras e extraímos aquelas com tom mais próximo da original. Mas é uma garimpagem. De uma rocha de três toneladas, a gente não obtém mais de três quilos de pedra que podem ser empregados no Cristo”, conta.

 

*Com informações do jornal O Globo.

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