A aparição de filhotes de tubarão em diferentes pontos do Complexo da Lagoa de Araruama, em Cabo Frio, surpreendeu moradores, pescadores e especialistas nas últimas semanas. Considerados visitantes incomuns em um ambiente hipersalino, os registros chamaram atenção não apenas pela raridade da cena, mas principalmente pelo que ela representa do ponto de vista ambiental: um ecossistema em transformação.
O primeiro caso ocorreu na última sexta-feira (23), na Praia das Palmeiras, na laguna de Araruama, quando Davi, um menino de apenas 9 anos, pescava no Canal Palmer e acabou fisgando um filhote de tubarão. Já no domingo (25), outro exemplar foi avistado e filmado no Canal do Itajuru, principal ligação natural entre a lagoa e o oceano Atlântico. As imagens rapidamente se espalharam pelas redes sociais e levantaram questionamentos – inclusive dúvidas sobre a real identificação do animal, posteriormente descartadas por especialistas.
Um encontro inesperado na infância
O filhote pescado no Canal Palmer virou assunto em toda a cidade. A mãe do garoto, Estéfany Nunes, conta que a família mora perto da lagoa e que a pesca sempre fez parte da rotina.
“Foi um dia comum. Ele estava no canal só para tomar banho e brincar, como sempre faz. Desde pequeninho ele já pesca com o avô e os tios”, relata.
Segundo Estéfany, o vídeo só ganhou repercussão depois que um familiar compartilhou as imagens em um aplicativo de mensagens. “Meu pai pesca há muitos anos e nunca tinha visto nada parecido. Quando meu filho chegou em casa contando, eu nem acreditei. Só depois, quando vi o vídeo, entendi que era real”, diz.
Apesar da alegria da criança, que ficou empolgada com a repercussão, a mãe confessa que também se preocupou com os comentários negativos que surgiram nas redes. “Teve muita coisa ruim. Mas, para ele, foi algo inacreditável, uma experiência única”, afirma.
Após o registro, o animal foi devolvido à água.
Canal do Itajuru: o elo entre a lagoa e o mar
O segundo flagrante aconteceu no Canal do Itajuru, em Cabo Frio. Quem registrou foi Caio Cunha, médico veterinário, pescador e morador da cidade. Ele conta que estava em um deck próximo à Ponte Feliciano Sodré quando o irmão percebeu a movimentação incomum na água.
“Quando ele me falou que tinha um tubarão ali, eu não acreditei. Só quando vi com meus próprios olhos entendi que era algo muito raro. Minha reação foi pegar o celular porque eu sabia que estava presenciando algo especial”, relata.
Caio destaca que já viu diversas espécies no canal, incluindo pinguins e até jacarés, mas que o tubarão foi, de longe, o mais surpreendente. “Mesmo sendo relativamente fácil eles entrarem pela Boca da Barra, não é algo comum de se ver”, afirma.
O Canal do Itajuru integra o Complexo da Lagoa de Araruama e funciona como a principal ligação entre a laguna e o oceano Atlântico. Com cerca de seis quilômetros de extensão, ele é fundamental para a renovação das águas da lagoa, permitindo a entrada e saída de organismos marinhos, sedimentos e nutrientes.
O que explica a presença dos filhotes?
De acordo com o biólogo e pesquisador Eduardo Pimenta, a Lagoa de Araruama não é um ambiente natural para a permanência de tubarões, justamente por ser hipersalina.
“Os tubarões não se sentem confortáveis em águas hipersalinas. A salinidade da lagoa é superior à do oceano, o que dificulta a manutenção desses animais por longos períodos”, explica.
Segundo o pesquisador, uma combinação de fatores pode explicar a entrada dos filhotes no sistema lagunar, como ressacas, frentes frias, ventos e marés mais intensas, que empurram grandes volumes de água do mar para dentro da lagoa.
“A dragagem do Canal do Itajuru e a ampliação de gargalos naturais favoreceram a renovação das águas. Isso permite a entrada não só de juvenis de tubarão, mas também de larvas e pós-larvas de peixes e camarões, muitos deles de importância econômica para a pesca local”, afirma.
Pimenta destaca ainda que entrar é mais fácil do que sair. “Quanto mais o animal avança para o interior da lagoa, mais hipersalina a água se torna. Ele tende a tentar retornar, mas essa saída nem sempre é simples”, explica.
Um fenômeno natural, sem risco à população
O secretário de Meio Ambiente, Saneamento Básico e Clima de Cabo Frio, Jailton Dias Nogueira Junior, que também é biólogo, afirma que o município recebeu os registros por e-mail e redes sociais e acompanha o caso.
“Na natureza, nada acontece por um único fator. Existe um sinergismo de condições, como dragagem, ressaca, chuvas e entrada de água doce, que podem ter favorecido essa ocorrência”, explica.
Ele reforça que a Lagoa de Araruama é um ecossistema vivo e que a presença de animais atípicos pode acontecer de forma natural. “Esses registros também chamam atenção para a importância da preservação. O manguezal da região funciona como berçário e abrigo para diversas espécies que ainda não conseguem competir no ambiente oceânico”, afirma.
A orientação das autoridades é clara: não tocar, não tentar capturar e acionar os órgãos ambientais em caso de animais debilitados ou encalhados.
Identificação correta e combate ao alarmismo
Nas redes sociais, parte do internautas levantou a hipótese de que os animais poderiam ser bagres. Especialistas descartam essa possibilidade. As imagens mostram características típicas de tubarões juvenis, como nadadeira dorsal triangular, cauda heterocerca, corpo hidrodinâmico e ausência de barbilhões.
Segundo Eduardo Pimenta, trata-se de um cação-frango, espécie pequena e inofensiva. “Não oferece risco algum aos banhistas”, reforça.
O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) informou que não há registros históricos oficiais de tubarões na Lagoa de Araruama ou no Canal do Itajuru, mas que as condições atuais da água podem favorecer avistamentos pontuais. O órgão ressalta ainda que muitas espécies de tubarões da costa brasileira estão ameaçadas de extinção, o que reforça a importância da preservação.
Saneamento, recuperação ambiental e novos sinais de vida
A recuperação gradual da Lagoa de Araruama está diretamente associada aos investimentos em saneamento realizados ao longo das últimas décadas. A concessionária Prolagos informou que, nos últimos 27 anos, investiu mais de R$ 2,8 bilhões na região, permitindo que a cobertura de esgotamento sanitário saltasse de 0% para cerca de 90% nos municípios atendidos. Atualmente, segue em execução um pacote de investimentos de R$ 450 milhões, com foco na ampliação do sistema de coleta e tratamento de esgoto, incluindo a construção de mais de 26 quilômetros de cinturão coletor ao redor da lagoa, projetados para impedir o lançamento de esgoto em 18 áreas estratégicas.
Após décadas de degradação ambiental provocada pelo crescimento urbano acelerado e pelo despejo direto de esgoto, a reversão desse cenário teve início em 2002, com a adoção do sistema de Coleta em Tempo Seco. Definida a partir de um acordo entre sociedade civil, órgãos reguladores e poder público, a medida foi determinante para interromper o ciclo de poluição, ao permitir que o esgoto encaminhado às galerias pluviais fosse interceptado e direcionado diretamente às estações de tratamento, evitando que chegasse à laguna.
Atualmente, esse modelo se sustenta por uma estrutura complexa, composta por sete estações de tratamento de esgoto, mais de 240 quilômetros de redes coletoras e de bombeamento – incluindo o cinturão coletor – e mais de 100 estações elevatórias responsáveis por conduzir o efluente até as unidades de tratamento espalhadas pela Região dos Lagos.
Os reflexos desses investimentos já são perceptíveis no ecossistema. Além do aumento da produtividade pesqueira – que, segundo dados do projeto Imersão, da Universidade Veiga de Almeida (UVA), registrou crescimento de 25% em 2025, com mais de 635 toneladas de pescado – o retorno de espécies sensíveis tem se tornado cada vez mais frequente. Há cerca de cinco anos, o surgimento de cavalos-marinhos, animais ameaçados de extinção e altamente dependentes de ambientes despoluídos, já havia chamado atenção para a melhora da qualidade da água e para o papel da lagoa como berçário natural.
Agora, a aparição de filhotes de tubarão no Complexo da Lagoa de Araruama se soma a esses registros e reforça que, embora ainda frágil e dependente de políticas contínuas de preservação, o ecossistema responde positivamente quando é cuidado. Esses visitantes inesperados ajudam a contar a história de uma lagoa viva, em processo de recuperação, que volta a ocupar o centro do debate ambiental na Região dos Lagos e reafirma a importância do saneamento como base para a preservação da biodiversidade.
Pós-graduada em Jornalismo Investigativo pela Universidade Anhembi Morumbi; e graduada em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela Universidade Veiga de Almeida.
Atuou como produtora/repórter na Lagos TV, Coordenadora de Programação na InterTV - Afiliada da Rede Globo, apresentadora na Rádio Costa do Sol FM e editora no Blog Cutback. É repórter no Portal RC24h desde 2016 e coordenadora de reportagem desde 2023, além de ser repórter colaboradora no jornal O Dia/Meia Hora. Também é criadora de conteúdo para a Web 3.0 na Hive.
Vencedora do 3º Prêmio Prolagos de Jornalismo Ambiental, na categoria web.






