02/09/2026 — 14:03
  (Horário de Brasília)

Rede de solidariedade abre caminho para menino de 10 anos retomar os estudos em Cabo Frio

Doações e ofertas de ajuda abrem caminho para o retorno de mãe e filho à Região dos Lagos

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Mãe e filho que perderam a casa e vivem em abrigos desde o início do ano começaram a fazer planos para deixar a situação de acolhimento. Adriano Álvaro Melo, de 10 anos, conhecido como Alvinho, e a mãe, Priscila de Melo, de 42, receberam doações e ofertas de ajuda.

O primeiro objetivo da família é retornar a Cabo Frio, na Região dos Lagos, para que Adriano possa retomar os estudos em uma escola particular onde foi matriculado no início do ano com uma bolsa integral. O benefício foi interrompido depois que Priscila, diagnosticada com tuberculose resistente a medicamentos, precisou retornar ao Rio para realizar tratamento na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A bolsa havia sido obtida por intermédio da direção de uma casa de atendimento temporário e de emergência para pessoas em situação de rua, abandono ou vulnerabilidade social, onde mãe e filho estavam em Cabo Frio.

“Quero voltar pelo menos para ele concluir o ano letivo, já que teve de abandonar os estudos de maneira abrupta, quando estava indo bem. Tem também a questão da dificuldade de adaptação. Lá ele já estava acostumado aos professores e aos colegas, dos quais diz sentir saudades. Depois a gente pensa o que fazer no ano que vem”, disse Priscila.

Segundo a mãe, ela já entrou em contato com a direção da escola para verificar a possibilidade de retomada da bolsa. Mesmo sem o benefício, Priscila afirma que as doações recebidas permitem que ela permaneça em Cabo Frio até o fim do ano e pague as mensalidades.

As doações em dinheiro chegaram a cerca de R$ 85,5 mil em pouco mais de 24 horas, segundo Priscila. As ofertas de ajuda também vieram de outras partes do Brasil e do exterior.

Além da possibilidade de retomada dos estudos, Priscila avalia outras propostas recebidas. Uma pessoa que se identificou como diretor de uma rede de ensino do Rio teria manifestado interesse em ajudar Adriano depois de conhecer a história do menino. Outra pessoa teria oferecido pagar o aluguel dos dois por pelo menos um ano.

Priscila também afirma ter sido procurada pela Mensa Brasil, associação sem fins lucrativos voltada para pessoas com alto quociente de inteligência (QI).

Mobilização surpreende mãe

Priscila disse que não esperava a quantidade de manifestações de apoio após a publicação da reportagem. Desde então, ela afirma que passou a conceder entrevistas e atender ligações de pessoas interessadas em ajudar.

“Estou impressionada. Não esperava que fosse receber tanta ajuda. Já dá esperança de reconstruir a minha vida e do meu filho. O que mais me surpreendeu foi essa mobilização das pessoas e vontade de ajudar num cenário em que há muita desconfiança e medo de cair em golpes. Ver que as pessoas estão confiando em mim e dispostas a nos ajudar é animador”, afirmou.

A divulgação da história também aumentou a procura por um livro publicado por Adriano quando ele tinha cinco anos, durante a pandemia de Covid-19. A obra, intitulada “Livro do Álvaro de Melo”, foi disponibilizada em uma plataforma de autopublicação na internet e apresenta a trajetória do menino relacionada à construção do conhecimento e à aprendizagem.

O preço sugerido para o livro é de R$ 10. De acordo com Priscila, muitas pessoas têm contribuído com valores superiores. Em um dia, ela recebeu mais de 30 pedidos.

Estudos e projetos

Aos 7 anos, Adriano desenvolveu o jogo “Super Alvinho” após participar de um curso on-line de programação da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. O jogo foi produzido em inglês, idioma que o menino estudou por meio de um aplicativo.

A produção conta a história de um cientista que utiliza superpoderes para construir robôs agrícolas e pesquisar formas de melhorar a produção e a distribuição de alimentos.

Adriano também participou de atividades de xadrez e robótica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em dezembro de 2023, ele foi palestrante em um evento sobre Pedagogia Social na Universidade Federal Fluminense (UFF).

A mãe conta que percebeu uma facilidade de aprendizagem do filho quando ele tinha 3 anos. Aos 4, durante a pandemia, Adriano aprendeu a ler e escrever com auxílio do aplicativo GraphoGame, do Ministério da Educação, destinado a crianças do 1º e 2º anos do ensino fundamental. Posteriormente, um teste confirmou as altas habilidades do menino.

Mudança para Cabo Frio

Priscila foi diagnosticada com tuberculose resistente a medicamentos em outubro do ano passado. Mesmo durante o tratamento, ela deixou o Rio de Janeiro com o filho no início de 2026 e se mudou para Cabo Frio em busca de uma oportunidade de emprego.

A tentativa não deu resultado e, sem condições de arcar com as despesas, mãe e filho foram encaminhados para uma casa de passagem no município. O local era o mesmo onde Adriano comemorou o aniversário de 10 anos, em abril.

O diretor da instituição conseguiu uma bolsa integral para o menino em uma escola particular. Adriano frequentou as aulas por dois meses, até que Priscila precisou retornar ao Rio para continuar o tratamento na Fiocruz, já que não conseguia realizar o acompanhamento necessário na Região dos Lagos.

Atualmente, os dois estão em um abrigo no Grajaú, na Zona Norte do Rio.

Histórico familiar

Antes da mudança para Cabo Frio, Priscila e o filho viviam de favores no Complexo da Maré. Ela havia perdido o apartamento onde morava em Itaboraí, na Região Metropolitana do Rio.

Segundo Priscila, ela foi vítima de um golpe imobiliário que resultou na perda do imóvel, do FGTS e da estabilidade habitacional do filho. O caso está sendo discutido na Justiça.

Separada e responsável pelo filho, Priscila passou a enfrentar dificuldades para manter uma moradia. Em fevereiro de 2024, Adriano aproveitou uma visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Maré para entregar uma carta com uma proposta de construção de uma escola destinada a crianças com altas habilidades na comunidade.

O menino participou de competições de xadrez e robótica, recebeu troféus e, em dezembro de 2024, foi condecorado na Câmara Municipal do Rio de Janeiro com a Medalha Pedro Ernesto. Com a mobilização após a divulgação da história, Priscila agora avalia as possibilidades de retorno a Cabo Frio e de continuidade dos estudos do filho.

Créditos: Jornal O Globo

Pier Luro
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