Cinco anos após a prisão de Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como “Faraó dos Bitcoins”, o destino de parte da fortuna movimentada pela G.A.S. Consultoria continua sem resposta. Em depoimentos obtidos com exclusividade pelo Fantástico, Glaidson e a mulher e sócia dele, Mirelis Diaz Zerpa, detalharam à Justiça o funcionamento da empresa fundada em Cabo Frio e investigada por movimentar R$ 38.223.489.348,97, segundo a Polícia Federal. No centro do mistério está uma carteira digital armazenada em um dispositivo mantido em um cofre da Polícia Federal.
O aparelho, semelhante a um pen drive, guarda chaves digitais que dão acesso a uma fortuna em criptomoedas. Segundo o depoimento de Glaidson, existe uma quantia vultosa na chamada “cold wallet” e os recursos seriam suficientes para pagar os credores.
Questionado pela juíza se havia dinheiro nessa carteira e se seria possível quitar os débitos, Glaidson respondeu que sim. Mais tarde, porém, afirmou que não sabia a senha de cabeça.
“A senha, agora de cabeça, eu não sei. Mas tá lá. Tá tudo lá”, declarou.
Glaidson foi preso em 2021 durante a Operação Kryptos e responde na Justiça Federal por organização criminosa e crimes contra o sistema financeiro, entre eles oferta irregular de investimentos, operação de instituição financeira sem autorização e gestão fraudulenta.
A G.A.S. Consultoria e Tecnologia Ltda. foi fundada em Cabo Frio e atraiu milhares de pessoas com a promessa de rendimento de 10% ao mês em investimentos relacionados a criptomoedas.
Em depoimento, Glaidson explicou à Justiça como dizia operar para obter os recursos necessários aos pagamentos. Segundo ele, ao captar dinheiro de várias pessoas, transformava-se em uma “baleia”, termo usado no mercado de criptomoedas para identificar quem possui uma quantidade muito grande de determinado ativo e pode influenciar seu preço.
“Então, como ‘baleia’, eu consigo manipular outras criptomoedas”, afirmou Glaidson.
Ele relatou ainda que entrava em contato com outras “baleias” para operar na queda de determinadas criptomoedas. Segundo sua explicação, os operadores poderiam apostar na queda e alavancar as posições em até dez vezes para provocar uma forte desvalorização.
Em outro trecho do depoimento, Glaidson afirmou que eram movimentados valores entre US$ 200 milhões e US$ 300 milhões. Ao ser questionado pelo Ministério Público Federal sobre eventual ilegalidade da prática, respondeu: “Não, não é ilegalidade, né? É falta de ética.”
Os recursos eram captados por meio de milhares de contratos individuais, alguns de pequeno valor. Glaidson resumiu a estratégia com o ditado “de grão em grão, a galinha enche o papo”.
O especialista Flávio D’Urso afirmou que o mercado de criptomoedas passou por um longo período sem regulamentação específica. Segundo ele, entre o início do Bitcoin, em 2008, e 2022, não havia uma regra específica para esse mercado.
Glaidson também relatou que funcionários da G.A.S. viajavam de helicóptero até São Paulo levando dinheiro em espécie recebido de clientes. Segundo ele, pessoas que estavam na cidade faziam a transferência dos valores para a carteira da empresa.
De acordo com a Polícia Federal, essa rede informal de investimentos movimentou R$ 38.223.489.348,97.
No tribunal, Glaidson confirmou que concentrava diferentes funções na G.A.S. “Idealizador da empresa, fundador da empresa, presidente da empresa, gestor da empresa, responsável da empresa”, declarou.
Mirelis também aparece nos depoimentos. Em 2024, quando era considerada foragida pela Justiça brasileira, ela foi presa em Chicago. Um ano depois, foi deportada para o Brasil.
Ela afirmou que seu trabalho era estudar criptomoedas, multiplicar o dinheiro e fazer trading, atividade que consiste na compra e venda de ativos para tentar obter lucro com as oscilações de preço.
Mirelis disse ainda que Glaidson era quem mantinha contato com os clientes. Para o Ministério Público Federal, porém, ela integrava o comando do esquema junto com o marido e também responde por crimes contra o sistema financeiro e organização criminosa.
Ao depor, Mirelis negou as acusações e afirmou que atuava como uma espécie de empregada de Glaidson. Questionada sobre o controle das entradas de clientes e investidores, disse: “Nunca cuidei da administração disso.”
Sobre o processo, declarou: “Com todo respeito, para mim foi como ler um livro de ficção científica.”
Movimentação de bitcoins
Um dos pontos analisados pelo Ministério Público Federal envolve a movimentação de criptomoedas após a prisão de Glaidson, em agosto de 2021. Naquele momento, ele estava preso no Brasil e teve as contas bancárias bloqueadas.
Mesmo assim, segundo o MPF, os negócios da G.A.S. continuaram. A investigação identificou o acesso a um computador em Kissimmee, na Flórida, local onde Mirelis estava. Segundo o Ministério Público Federal, 4,5 mil bitcoins deixaram a conta. Na época, o valor correspondia a mais de R$ 1,06 bilhão.
Questionada se havia feito algum resgate de criptomoedas depois da operação, Mirelis respondeu que sim, mas afirmou que utilizou dinheiro próprio. Perguntada se havia retirado recursos da empresa, negou.
“Não, da empresa não. Eu nunca retirei dinheiro da empresa”, declarou.
A defesa de Mirelis também nega que ela tenha ficado com R$ 1 bilhão. Segundo os advogados, os bitcoins foram movimentados para devolver aos clientes valores que pertenciam a eles.
A defesa afirma ainda que, após a prisão de Glaidson, Mirelis foi orientada pelos advogados da empresa a manter os pagamentos aos clientes, inclusive por meio da venda de bitcoins armazenados nas carteiras da G.A.S.
Mais de 77 mil credores
A lista de credores de Glaidson Acácio dos Santos, elaborada pelos administradores judiciais da massa falida da G.A.S. Consultoria, reúne mais de 77 mil empresas e pessoas. A dívida chega a quase R$ 3 bilhões.
Uma das vítimas relatou ao Fantástico que decidiu investir depois de observar amigos recebendo os pagamentos regularmente. Para colocar dinheiro no negócio, vendeu carro e moto e contratou empréstimos consignado e pessoal.
“Vendi carro, vendi moto, peguei dinheiro emprestado, tanto empréstimo consignado quanto pessoal. Foram mais de 500 mil reais”, contou.
Antes da prisão, Glaidson já havia utilizado as redes sociais para tentar tranquilizar os investidores diante das denúncias reveladas em 2021. Na ocasião, afirmou que a G.A.S. possuía mais de 200 CNPJs e que os contratos não levariam à quebra da empresa. Também declarou que os recursos estavam fora do Brasil.
Quatro anos depois, durante o depoimento à Justiça, a juíza perguntou se esse dinheiro realmente existia. Glaidson respondeu: “Tá lá. Tá tudo lá.”
Pedido de condenação
Nas alegações finais, depois de quase cinco anos de processo, o Ministério Público Federal pediu a condenação de Glaidson, Mirelis e outras 15 pessoas acusadas de integrar o grupo. Caso sejam condenados, eles podem receber penas superiores a 37 anos de prisão.
Glaidson nega as acusações.
“Essas acusações são inverdades ao meu respeito. Eu não cometi crime algum. No meu ponto de vista foi algo muito precipitado da parte da paralisação da atividade da minha empresa”, afirmou.
O empresário também é réu em outros processos, incluindo um por homicídio e outro por tentativa de homicídio. Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, ele teria participado de crimes ocorridos em 2021 contra concorrentes da G.A.S. Consultoria.
Wesley Pessano foi vítima de homicídio. Cinco anos depois, a família aguarda o julgamento de Glaidson. Os casos ainda serão levados a júri popular.
Glaidson segue preso na Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná. Mirelis está presa preventivamente no Rio de Janeiro.
As defesas
Em nota, a defesa de Glaidson afirma que ele é inocente das acusações feitas pelo Ministério Público Federal e que as atividades da G.A.S. não configuravam crime contra o sistema financeiro nacional.
Os advogados sustentam que a interrupção dos pagamentos aos clientes ocorreu em cumprimento a uma ordem judicial. Também afirmam que o edital com a lista de credores contém equívocos e está sendo contestado na Justiça.
Sobre os processos por homicídio e tentativa de homicídio, a defesa diz que não existem provas contra Glaidson e afirma confiar na inocência dele. Os advogados também sustentam que Mirelis não tinha atuação na G.A.S. e que ela figurou como sócia por ser esposa de Glaidson.
A defesa de Mirelis declarou que ela não integrava a estrutura administrativa da empresa. Os advogados também afirmaram que ela foi orientada a manter os pagamentos aos clientes após a prisão de Glaidson, utilizando inclusive bitcoins das carteiras da G.A.S.
Sobre a movimentação dos 4,5 mil bitcoins, a defesa nega que Mirelis tenha ficado com R$ 1 bilhão e afirma que os ativos foram movimentados para devolver aos clientes valores que lhes pertenciam.
O mistério da cold wallet
Em seu depoimento, Mirelis afirmou que não tinha acesso à carteira utilizada para as transações de criptomoedas. “Para fazer uma transação de criptomoeda, você precisa ter uma carteira de cripto. Eu não tinha acesso a absolutamente nada”, declarou.
A chamada “cold wallet”, ou carteira fria, é mantida desconectada da internet. Segundo Flávio D’Urso, para acessá-la é necessária uma senha, dentro da qual podem existir diversas outras senhas, chamadas de chaves privadas.
A juíza questionou diretamente Glaidson sobre a existência de uma quantia elevada na carteira.
“Existe”, respondeu.
Em seguida, veio a pergunta sobre a possibilidade de usar os recursos para pagar todos os credores.
“Dá. Dá. Dá”, afirmou Glaidson.
Segundo D’Urso, Glaidson tinha o controle sobre as criptomoedas por meio dessas senhas. O especialista alertou que, caso algo aconteça com o empresário sem que as senhas sejam deixadas para outra pessoa, os ativos digitais podem ser perdidos para sempre.
O paradeiro da fortuna, portanto, permanece ligado ao dispositivo guardado pela Polícia Federal e à senha que Glaidson afirma não lembrar de cabeça. Para as vítimas, a recuperação desses recursos continua sendo uma das principais questões do caso.





