09/08/2026 — 11:30
  (Horário de Brasília)

Falso médico é preso acusado de exercer ilegalmente a profissão e fazer exames admissionais em Arraial do Cabo

Ele teria atendido candidatos durante processo de contratação para a rede municipal de ensino; procedimento é alvo de questionamentos

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Diogo dos Santos Serpa foi preso em flagrante na quinta-feira (6), em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, acusado de exercer ilegalmente a medicina e de atender uma criança em tratamento contra um tumor cerebral. Ele também teria realizado exames admissionais de candidatos contratados para atuar na rede municipal de ensino de Arraial do Cabo. Segundo a Polícia Civil, Diogo não possui formação nem habilitação para exercer a medicina.

Os exames admissionais teriam sido realizados durante a etapa anterior à contratação de profissionais pelo Instituto Rede de Apoio Social, organização responsável pela gestão de serviços junto à rede municipal de ensino.

Uma trabalhadora que participou do processo seletivo confirmou ter sido examinada por Diogo. Ela relatou que atuava havia um ano e sete meses na Prefeitura de Arraial do Cabo por meio de um contrato com duração prevista de dois anos.

Segundo a trabalhadora, os profissionais foram informados, no meio deste ano, de que uma empresa terceirizada assumiria as contratações. Após a inscrição e o envio dos currículos, os candidatos selecionados entregaram a documentação e passaram pelos exames admissionais.

De acordo com o relato, cerca de três médicos participavam dos atendimentos no local. Diogo teria sido responsável pelo exame realizado na trabalhadora. Ela questiona a validade do procedimento e se será necessário realizar uma nova avaliação.

Um atestado de saúde ocupacional obtido pela reportagem apresenta o carimbo de “Dr. Jefferson Sampaio”. Segundo a Polícia Civil, Diogo utilizava o nome e o registro profissional desse médico durante os atendimentos. O documento registra que a pessoa examinada foi considerada apta para exercer a função.

Ainda não foi informado quantos candidatos da Secretaria Municipal de Educação foram atendidos pelo suspeito, em quais processos seletivos ele participou ou se os profissionais precisarão realizar novos exames admissionais.

Uma convocação publicada pelo Instituto Rede de Apoio Social aponta que 28 candidatos ao cargo de auxiliar de Educação Infantil foram chamados no Processo Seletivo nº 006/2026. A entrega da documentação, considerada uma etapa classificatória e eliminatória, ocorreu em 30 de julho, no Colégio Municipal Francisco Porto de Aguiar.

Segundo a denúncia, parte dos candidatos teria sido atendida por Diogo. Outra médica também realizava os exames no local. Há questionamentos sobre a documentação profissional dessa médica, e também é necessário esclarecer quantos candidatos foram examinados por ela.

Denúncias sobre o processo seletivo

Os processos seletivos conduzidos pela instituição também são alvo de questionamentos relacionados à divulgação dos resultados. Candidatos relatam ausência de listas completas com pontuações e classificações, falta de justificativas para as notas atribuídas na análise de títulos e currículos e ausência de informações sobre os resultados dos recursos apresentados.

Também foram relatadas dificuldades para acompanhar as etapas e acessar informações pelos canais oficiais. Os candidatos pedem a divulgação das relações de inscritos, notas e classificações.

Prisão

Diogo foi preso por agentes da 63ª DP, de Japeri, durante um atendimento domiciliar a uma criança de 10 anos em tratamento contra um tumor cerebral maligno. De acordo com a Polícia Civil, o homem utilizava registros no Conselho Regional de Medicina, carimbos e receituários de outros profissionais sem autorização.

A investigação aponta que ele atendia a criança desde outubro de 2025 e teria realizado pelo menos seis consultas, com cobranças entre R$ 700 e R$ 1 mil por atendimento.

Segundo os investigadores, Diogo teria prescrito medicamentos, solicitado exames e feito encaminhamentos utilizando os dados de outro médico.

A mãe da criança teria identificado inconsistências nas prescrições e consultado o cadastro do Conselho Regional de Medicina. Segundo a investigação, a fotografia vinculada ao registro apresentado não correspondia ao homem que realizava os atendimentos. A família procurou a delegacia, que enviou policiais à residência. Diogo foi abordado após mais um atendimento.

Durante a ação, os policiais apreenderam um carimbo e receituários de controle especial em nome de Jefferson Targino Sampaio, além de documentos carimbados em nome de outro médico e blocos de receitas.

Diogo foi autuado por exercício ilegal da medicina com fins lucrativos, uso de documento particular falso, falsa identidade, tentativa de estelionato e perigo para a vida ou a saúde de outra pessoa. A delegacia solicitou à Justiça a conversão da prisão em flagrante em preventiva.

A Polícia Civil informou que o homem também aparece como autor em outros quatro procedimentos relacionados a falsidade ideológica, furtos e peculato. Os investigadores apuram se outras pessoas foram atendidas por ele enquanto se apresentava como médico.

O Instituto Rede de Apoio Social foi questionado sobre o vínculo com Diogo, o número de exames admissionais realizados por ele, a conferência dos documentos profissionais, a possibilidade de realização de novas avaliações e as denúncias relacionadas ao processo seletivo.

A primeira nota da prefeitura sobre essa empresa:

A Prefeitura de Arraial do Cabo, por meio da Secretaria de Educação, informa que a transição para o novo modelo de prestação dos serviços de Apoio Escolar será realizada de forma organizada e planejada, garantindo a continuidade do atendimento e a qualidade dos serviços oferecidos aos estudantes da rede municipal. Nenhum aluno foi ou será prejudicado durante esse processo.

O principal objetivo da medida é assegurar os direitos das crianças, manter o atendimento educacional de forma eficiente e garantir que os profissionais necessários estejam disponíveis para atender à demanda da rede de ensino.

A contratação da empresa responsável pelos serviços de Apoio Escolar foi realizada dentro da lei, seguindo todos os procedimentos exigidos. Todo o processo foi publicado no Diário Oficial e está disponível no Portal da Transparência.

As vagas são para três funções: Auxiliar de Educação Infantil, que atua junto aos professores nas turmas da Educação Infantil; Cuidador Escolar; e Mediador Escolar, ambos destinados ao atendimento de estudantes da Educação Especial Inclusiva, conforme avaliação da equipe multiprofissional do setor.

A medida atende, entre outros pontos, às determinações do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), que orientou o município a reduzir as contratações temporárias na rede municipal de ensino. O objetivo também é garantir a continuidade do atendimento aos alunos.

Antes da contratação, a Secretaria realizou estudos que apontaram dificuldades para manter e repor profissionais, devido à alta rotatividade desses trabalhadores. Por isso, foi definida a contratação de uma empresa especializada.

O processo licitatório já foi concluído e a empresa vencedora foi contratada. A previsão é que os serviços comecem no retorno das aulas do segundo semestre, no início de agosto, sem prejuízo às atividades escolares.

A Secretaria de Educação também se reuniu com representantes do SEPE Lagos e da Comissão de Auxiliares de Classe, na manhã desta quarta-feira (15), para explicar a medida e esclarecer dúvidas, reforçando o compromisso com o diálogo e a transparência.

Reiteramos que é importante que a terceirização não se torne uma pauta política. O foco da Administração Municipal é garantir a continuidade dos serviços, assegurar os direitos dos estudantes e oferecer um atendimento de qualidade às crianças da rede municipal de ensino.

A Prefeitura reafirma o compromisso com a transparência, a boa governança e a gestão responsável, conduzindo seus atos em conformidade com a legislação e com as diretrizes dos órgãos de controle, entre eles o Tribunal de Contas do Estado, assegurando a correta aplicação dos recursos públicos.

O Portal RC24h entrou em contato com a Prefeitura de Arraial do Cabo para saber se o município tinha conhecimento da atuação de Diogo nos exames admissionais, quais providências serão adotadas e sobre os questionamentos relacionados ao processo seletivo.

A Prefeitura informou que o processo de recrutamento é de responsabilidade da empresa contratada, cabendo à empresa conduzir esses procedimentos e garantir que os profissionais estejam devidamente habilitados para o exercício de suas funções, conforme as condições estabelecidas em contrato e na legislação vigente.

Ao Município cabe acompanhar e fiscalizar rigorosamente a execução dos serviços contratados, cobrando da empresa o cumprimento integral de todas as obrigações previstas no contrato e a adequada prestação dos serviços à população.

Em relação à informação divulgada sobre o profissional citado, a Prefeitura já solicitou esclarecimentos à empresa contratada. O caso está sendo apurado e, caso sejam constatadas irregularidades relacionadas à habilitação do profissional ou à validade dos exames realizados, o Município cobrará imediatamente da empresa as providências administrativas cabíveis.

Créditos: G1

Pier Luro
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