Toda quinta-feira, o caminho começa antes mesmo da chegada à Casa Scliar, no Centro de Cabo Frio. Um ônibus passa pelas comunidades quilombolas da Rasa, São Jacinto e Botafogo para reunir mulheres que, desde maio, compartilham muito mais do que o aprendizado da cerâmica. Durante o trajeto, as conversas já anunciam o que as espera: algumas horas de encontro, criação, troca de experiências e construção de novos vínculos.
Nesta quinta-feira (20/08), esse percurso será feito pela última vez nesta etapa do projeto “Somos Divas na Luz do Candeeiro”, desenvolvido pelo Instituto Carlos Scliar em parceria com a Prolagos. O encontro marca o encerramento das oficinas de 2026, realizadas semanalmente na Casa Scliar.
Na sala onde acontecem as oficinas, a argila passa de mão em mão e, aos poucos, ganha novas formas. Pratos, canecas, folhas e outras peças surgem enquanto histórias são contadas ao redor das mesas. Sob a orientação das ceramistas Juliana Cruz e Cristina Ventura, também coordenadora da Casa Scliar, cada participante encontra seu próprio ritmo para criar.
Para Cristina, é justamente essa combinação entre arte, convivência e valorização das trajetórias dessas mulheres que faz com que o projeto ultrapasse os limites de uma oficina de cerâmica.
“Quando existe um apoio que possibilita a continuidade do projeto e garante que essas mulheres consigam chegar até aqui todas as semanas, conseguimos construir algo que vai muito além do aprendizado de uma técnica. São encontros que fortalecem vínculos, estimulam a criatividade e criam um espaço onde elas podem compartilhar suas histórias e reconhecer suas próprias potencialidades. Essa parceria com a Prolagos é fundamental para que esse trabalho continue chegando às comunidades”, destaca Cristina Ventura, coordenadora da Casa Scliar.
Um encontro que também cuida
Para Jussara da Silva, moradora do Quilombo da Rasa, as quintas-feiras ganharam um significado especial. Mais do que aprender a transformar a argila, ela encontrou nas oficinas um espaço para conversar, ouvir outras histórias e deixar, por algumas horas, as preocupações do cotidiano do lado de fora.
“Para mim, esse projeto foi uma verdadeira cura. A gente vinha para cá, encontrava outras mulheres, conversava, conhecia histórias diferentes e, ao mesmo tempo, colocava a mão na argila e aprendia. Foi muito importante também para a nossa saúde mental. Era um momento que a gente tinha para nós mesmas”, conta Jussara.
O sentimento é compartilhado por Maria Piedade, do Quilombo de Botafogo. A experiência trouxe um novo aprendizado, mas também amizades que começaram antes mesmo de as participantes chegarem à sala de aula.
“A nossa aula já começava dentro do ônibus. A gente vinha conversando, brincando e conhecendo melhor umas às outras. Aqui, aprendemos algo que muitas de nós nunca tinha feito, e as professoras tiveram muita paciência para ensinar cada etapa. Além do aprendizado, ficam as amizades. Já estou sentindo falta dessa rotina de toda semana vir para o Centro de Cabo Frio para encontrar todo mundo”, afirma Maria.
Uma história iniciada em 2020
O “Somos Divas na Luz do Candeeiro” nasceu em 2020 com a proposta de fomentar a representatividade, a liberdade e a independência de mulheres quilombolas, estimular o potencial criativo e utilizar a arte também como possibilidade de geração de renda.
Ao longo das oficinas, as participantes aprendem diferentes etapas do trabalho com a cerâmica, da modelagem da argila à finalização das peças. Mais do que a técnica, porém, o projeto proporciona um ambiente de valorização da cultura, da memória e dos saberes dessas mulheres.
Nesta edição, a Prolagos também viabilizou gratuitamente o transporte das participantes. A cada quinta-feira, um ônibus fretado pela concessionária fez o percurso pelas comunidades para levá-las à Casa Scliar e, ao término das atividades, conduzi-las de volta para casa.
Para Aline Araújo, coordenadora de Responsabilidade Social da Prolagos, apoiar iniciativas como essa é uma forma de contribuir para que oportunidades de desenvolvimento e fortalecimento comunitário cheguem aos territórios onde a concessionária atua.
“Quando apoiamos um projeto como o ‘Somos Divas na Luz do Candeeiro’, estamos contribuindo para criar oportunidades de encontro, aprendizado, valorização da cultura e fortalecimento da autonomia dessas mulheres. O transporte, por exemplo, é uma forma de ajudar a eliminar uma barreira de acesso e permitir que elas estejam aqui a cada semana. Para a Prolagos, responsabilidade social também significa estar próxima das comunidades e apoiar iniciativas capazes de gerar impactos que permaneçam para além do período das oficinas”, afirma Aline.
Embora as oficinas semanais cheguem ao fim nesta quinta-feira (20/08), os aprendizados construídos ao longo dos últimos meses seguem com as participantes. Além das técnicas de modelagem e produção das peças, a experiência deixa vínculos fortalecidos, novas referências e possibilidades para que as mulheres continuem explorando a cerâmica para além dos encontros na Casa Scliar.
Uma confraternização com exposição das peças produzidas pelas participantes está prevista para outubro, na Casa Scliar. A proposta é reunir novamente o grupo e apresentar os trabalhos desenvolvidos ao longo desta edição, valorizando as criações e as histórias que deram forma a cada peça.




Jornalista pós-graduada em Jornalismo Investigativo pela Universidade Anhembi Morumbi e graduada em Comunicação Social pela Universidade Veiga de Almeida.
Repórter no Portal RC24h desde 2016 e coordenadora de reportagem desde 2023. Também é repórter colaboradora no jornal O Dia/Meia Hora e criadora de conteúdo para Web 3.0.
Atuou como produtora e repórter na Lagos TV, coordenadora de programação na InterTV - afiliada Rede Globo, apresentadora na Rádio Costa do Sol FM e editora no Blog Cutback.
Vencedora do 3º Prêmio Prolagos de Jornalismo Ambiental, categoria web.






