A Região dos Lagos transformou-se no principal campo de batalha de uma disputa que redesenha o transporte rodoviário no país. Dados recentes da Buser, maior plataforma de inteligência em mobilidade rodoviária do Brasil, revelam que Cabo Frio alcançou o top 10 no ranking da companhia, consolidando-se como o destino de praia e lazer mais buscado de todo o país, ficando à frente de todos os demais litorais atendidos pela empresa.
No cenário estadual, o município já é o segundo destino mais procurado do Rio de Janeiro, atrás apenas da capital, superando polos importantes como Niterói e Campos dos Goytacazes. O volume de passageiros transportados por aplicativo para a cidade mantém uma trajetória consistente de alta há três temporadas, com um crescimento expressivo que superou os 25% na comparação anual durante os meses de pico do verão.
Essa invasão de turistas acendeu o alerta no sistema de transporte tradicional. Se por um lado a capilaridade das rotas atrai quem busca fugir das tarifas fixas dos guichês, por outro, a falta de infraestrutura de embarque fora dos terminais ainda gera forte resistência.
De acordo com o levantamento da empresa, as conexões diárias ligam Cabo Frio aos três principais mercados do Sudeste. O estado de Minas Gerais lidera como a maior origem de viajantes para o município litorâneo, impulsionado principalmente pelo fluxo saindo de Belo Horizonte e de diversas cidades do interior mineiro, seguido de perto por rotas que partem de São Paulo e do próprio território fluminense.
A facilidade de rotas diretas e por conexão, inclusive via capital do Rio, ampliou o alcance do destino para além do entorno imediato. “Acreditamos que a aceitação dos clientes sobre as rotas para Cabo Frio tem sido positiva. Essa capilaridade permite que a Buser leve turistas de dezenas de cidades diretamente ao litoral fluminense, com facilidade, segurança e previsibilidade”, diz Thiago Zanetti, COO da Buser Brasil. No entanto, na ponta final da operação, quem utiliza o serviço aponta que a principal engrenagem por trás desse crescimento expressivo continua sendo o bolso.
Guerra das tarifas: passagens até metade do preço

Passageiros frequentes relatam que a disparidade de preços em relação às empresas que operam dentro das rodoviárias é o fator decisivo na hora de planejar a viagem. A funcionária pública Helena, que faz regularmente o trajeto entre Cabo Frio e Juiz de Fora, em Minas Gerais, aponta que as passagens nas viações tradicionais oscilam hoje entre R$ 145 e R$ 165. No modelo de rateio por aplicativo, o cenário é outro:
“Já paguei R$ 25, R$ 35, R$ 42 e R$ 45. O valor mais alto que cheguei a pagar foi R$ 72, o que ainda é praticamente metade do valor cobrado na rodoviária”, afirma Helena.
Além da economia direta, usuários mais atentos driblam o sistema aproveitando a flexibilidade das rotas para conseguir tarifas ainda mais agressivas, como passagens promocionais a R$ 8 compradas para destinos finais vizinhos (como Arraial do Cabo), utilizando Cabo Frio apenas como ponto de desembarque intermediário.
Por outro lado, as empresas tradicionais defendem que a diferença de preços cobrada nos aplicativos está atrelada a uma flexibilidade operacional que pode deixar o passageiro na mão. Procurada pela reportagem, a Única, concessionária que opera a linha regular Juiz de Fora (MG) x Cabo Frio (RJ), negou que tenha reduzido o quadro de horários neste ano e apontou uma diferença crucial no modelo de negócios:
“O transporte regular possui características próprias, dentre elas o compromisso de realizar as viagens programadas independentemente do índice de ocupação do veículo. Já algumas plataformas de fretamento colaborativo (aplicativo de transporte) dependem da formação de um número mínimo de passageiros para confirmar a viagem, o que permite uma dinâmica distinta na composição dos preços das passagens”, pontuou a Única, em nota.
A empresa informou ainda que realiza investimentos contínuos na renovação de frota e na oferta de horários extras em períodos de alta demanda, como férias e feriados, para garantir a eficiência e o conforto do serviço.
Quando o “barato pode sair caro”

Apesar da agressividade nas tarifas e da expansão das rotas interestaduais, o modelo de embarque e desembarque em vias públicas ou postos de combustíveis é o principal ‘calcanhar de Aquiles’ das novas plataformas. Para uma parcela de viajantes, a comodidade financeira não compensa os riscos associados à segurança e à mobilidade urbana.
A recepcionista paulista Tauani Isabelle, que desembarcou na cidade e optou pelo transporte convencional para retornar a São Paulo, faz um alerta sobre a infraestrutura das paradas alternativas:
“Acho que a gente tem mais segurança pegando os ônibus que saem direto da rodoviária. Pega a gente no local, deixa no local. Esses ônibus de aplicativo param muito em ponto de estrada. A gente fica com um pouco de receio de parar onde a gente não conhece”, pondera Tauani.
A passageira levanta um ponto crítico da experiência do usuário: a chamada ‘última milha’ da viagem. Segundo ela, desembarcar em pontos periféricos ou desertos transfere o custo da economia para o transporte complementar.
“O barato pode sair caro. Passamos por alguns pontos de desembarque de aplicativo no caminho e é muito deserto, não tem nada perto. Às vezes para achar um Uber pode ser difícil ou sair mais caro se você parar muito longe de onde está hospedada. Ponderando a diferença, o ônibus da rodoviária é mais fácil e organizado”, conclui a recepcionista.
Contra-ataque privado

Cientes dessa principal fraqueza do modelo de aplicativos, que é a percepção de falta de estrutura, os pontos de embarque privados e alternativos de Cabo Frio estão respondendo com pesados investimentos. O objetivo é transformar a experiência do usuário de tecnologia em algo tão confortável e seguro quanto o terminal convencional.
Empresários locais têm trabalhado diretamente com a escuta de motoristas, guias, empresas de ônibus e passageiros para remodelar esses espaços. É o caso do Via Mar, ponto estratégico de apoio a passageiros de turismo e aplicativos na cidade. O empresário e proprietário do espaço, Vagner Nogueira, destaca que a região sobrevive do turismo e, para atrair um visitante de qualidade, é preciso oferecer estrutura à altura.
“A gente tem feito investimento e trabalhado arduamente para que haja melhoria no setor turístico. O Via Mar entende que precisa entregar [qualidade]. Então, a gente entrega qualidade para ter qualidade. Estamos investindo na cobertura, no calçamento, agora estamos fazendo novos banheiros, salas VIPs, vamos melhorar a área de conveniência, além de contar com Wi-Fi liberado, ambiente 100% monitorado e segurança”, detalha.
Com os olhos postos na principal temporada econômica do município, o empresário revela que o cronograma de obras corre contra o tempo: “Nossa intenção é de que até novembro esteja tudo concluído, para que o cliente tenha maior comodidade e conforto ao chegar na Região dos Lagos”, conclui o proprietário do Via Mar.
Enquanto o mercado se adapta à consolidação das plataformas de tecnologia e ao forte fluxo de turistas do Sudeste rumo ao litoral fluminense, cabe ao passageiro colocar na balança o que pesa mais: o alívio imediato no orçamento, a previsibilidade das rodoviárias tradicionais ou a nova infraestrutura que o setor de fretamento alternativo corre para entregar antes do próximo verão.








*Colaboração: João Victor Campos.
Jornalista pós-graduada em Jornalismo Investigativo pela Universidade Anhembi Morumbi e graduada em Comunicação Social pela Universidade Veiga de Almeida.
Repórter no Portal RC24h desde 2016 e coordenadora de reportagem desde 2023. Também é repórter colaboradora no jornal O Dia/Meia Hora e criadora de conteúdo para Web 3.0.
Atuou como produtora e repórter na Lagos TV, coordenadora de programação na InterTV - afiliada Rede Globo, apresentadora na Rádio Costa do Sol FM e editora no Blog Cutback.
Vencedora do 3º Prêmio Prolagos de Jornalismo Ambiental, categoria web.






