Colunista RC24h / PSICÓLOGA GIULIA EDLER: Estupro é crime e a culpa nunca é da vítima

"Por que uma vítima de abuso sexual só revelaria o crime depois de anos? Por que a vítima manteria algum tipo de conexão com seu agressor? São muitos os possíveis motivos"


As perguntas que não querem calar: Por que uma vítima de abuso sexual só revelaria o crime depois de anos? Por que a vítima manteria algum tipo de conexão com seu agressor? São muitos os possíveis motivos. Pontuarei alguns deles e darei desdobramento nos que acredito serem os mais comuns quando o abuso ocorre durante a infância da vítima.

Vítimas não identificam o assédio; medo de que ninguém acredite; medo do agressor; vítima sente vergonha; vítima sente-se culpada; medo de reviver a experiência; medo de perder alguma posição social/emprego etc; medo de processar e não dar em nada; medo da falta de acolhimento.

Existem vários aspectos que precisam ser levados em consideração, como a idade em que a vítima sofreu a violência, sua personalidade, contexto social e cultural, vínculos familiares (esta criança está inserida em uma família que costuma ouvir e dar valor ao que a criança diz? Qual o papel da figura infantil para esta família?), quem cometeu o abuso, qual a frequência, quais as consequências que podem advir da revelação... Existem muitas questões que intervém na situação.

Muitas vítimas relatam não terem percebido na época dos assédios que estavam sendo assediadas. A criança sofre violência geralmente por familiares ou pessoas muito próximas, que abusam de sua confiança, na maioria das vezes, pessoas que a própria criança ama ou admira. Por isso, não podemos deixar de falar sobre os sentimentos envolvidos. Eles ficam confusos, a vítima não entende o que está ocorrendo, não sabe discernir se aquilo está certo ou errado. Afinal, é um adulto muito chegado e a quem ela confia.

E aí vamos quebrar tabus. Estamos falando da ambivalência dos sentimentos amor e ódio, medo, prazer, dor. Nosso corpo é feito de zonas erógenas e a criança pode sim sentir prazer e depois culpa pelo que sentiu. Os sentimentos ficam bem desorganizados. Aliás, a culpa é um sentimento bem comum relatado pelas vítimas de abuso sexual, pois até que a vítima entenda e reconheça o ocorrido como estupro, às vezes, demoram anos. Existe todo um longo processo de reconhecimento e assimilação do episódio. A compreensão vai chegando aos poucos e, mais uma vez, se mistura com inúmeros sentimentos e questionamentos: “Por que não reagi? Será que ele fez por que eu permiti?”. Coloca-se como a culpada, a causadora do acontecimento, como se ela tivesse permitido que acontecesse, e isso costuma gerar um sentimento de culpa enorme na vítima.

Não podemos deixar de falar sobre o entendimento do STJ e STF sobre o assunto. Entende-se que o bem jurídico tutelado no crime de estupro contra menores de 14 anos é a imaturidade psicológica, a anterior experiencia sexual e/ou o consentimento da vítima são irrelevantes para a configuração do delito de estupro. Por isso, uma coisa é certa: a vítima poderia até ter sentido prazer ou não, dor ou não, amor ou não, admiração ou não, mas não há dúvidas de que FOI ESTUPRO SIM! A vítima tem o direito de denunciar a hora que ela quiser, mesmo isso sendo anos depois. Mesmo que a vítima tenha mantido um bom relacionamento com seu agressor, uma vez que ela reconheça que foi assediada, ela terá a escolha de denunciar, de mudar sua relação e conduta perante o agressor, estabelecer seus limites e se libertar da culpa carregada há quantos anos nas costas.

 

 

*Giulia Coelho Edler
Psicóloga clínica
Especialização em clínica com crianças e adolescentes. Atende todas as idades
Pós-graduanda no curso de Psicologia Clínica com Crianças na PUC-RIO
Consultório no Portinho e Centro de Cabo Frio. Atende também no Rio de Janeiro

Categorias: Opinião Comportamento

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