Opinião

Colunista RC24h – Márcio Paixão: Glauber Rocha visita Cabo Frio

Em: 29/10/2016 às 14:41:22
Márcio Paixão

Inicio esta escrita me apropriando explicitamente do pensamento do genial cineasta baiano Glauber Rocha. "A arte é a dimensão anárquica da matéria onírica". Nesta fala, o cineasta invoca uma imensidão que só a grandiosidade de um artista operante é capaz de construir.

 

 No histórico período dos anos 60, em que o mundo era polarizado e influenciado por duas potências econômicas, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, atual Rússia, e os Estados Unidos, Glauber ajudou a criar uma nova linguagem para o cinema brasileiro. Era o Cinema Novo. Este movimento tinha como objetivo buscar  uma identidade nacional para a arte enquanto um dispositivo que recorta o tempo e o espaço, a fim de revelar maneiras de ser.  Seus filmes expõe um Brasil do real, das crises políticas, da desigualdade social, da história marcada pelas opressões dos grandes interesses econômicos. Um exemplo disso encontramos em sua obra mais aclamada pela crítica, Terra em Transe (1967). Sob a mira das armas dos militares da ditadura, Glauber ousou transpor, através desta obra a tragédia política pela busca do poder em uma cidade fictícia, porém muito brasileira.

 

Portanto, quando o cineasta afirma que a arte é a dimensão anárquica da matéria onírica, ele quer expressar o sentimento proposto pela arte em oferecer a liberdade de buscar nos sonhos o desejo prático de transformação social. econômica, política e cultural.

 

Sendo assim, trago esta reflexão onírica, utópica proposta por Glauber para bem próximo de nós, moradores de Cabo Frio. Vivemos um intenso momento de anomia devido a ausência de governabilidade. Funcionários públicos sem receber seus salários, devendo aos bancos com suas enormes taxas lucrativas, sem conseguir pagar aluguéis e comer.   Com isso, compromete também o funcionamento dos serviços mais básicos assegurados pela constituição, como  saúde e educação. Além, claro dos comerciantes que são obrigados a fecharem as portas. Isso só foi possível devido aos interesses privados de uma política ainda oligárquica nos dias de hoje.

 

Os trabalhadores da cidade estão sendo massacrados, humilhados. Os direitos conquistados através de inúmeras batalhas que custaram vidas, são completamente ignorados. A culpa, para os opressores, é de quem se organiza para tomar às ruas em busca de reaver seu sono, os sorrisos dos filhos e sua saúde física e psicológica. Querem a todo custo dizer que a desordem que nos encontramos é devido às greves, mas a história existe para provar exatamente o contrário. Um bom exemplo são  as greves do ABC paulista iniciadas em 1978, que além de exigiram melhores condições de trabalho e aumento salarial,  os operários lutaram pelo redemocratização do país.

 

Estamos em transe aqui nesta terra que por hora encontra-se desamada. É preciso continuar se organizando, tomando às ruas e fazendo filmes. Só existirá uma cidade melhor se lutarmos coletivamente por ela.

 

 

 

* Márcio Paixão é Cientista Social (UFF) e Documentarista (Observatorio Escuela de Cine Documental - Argentina).


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